"(...) seria apenas necessário tomar a atitude deliberada de induzir-me rapidamente a um orgasmo. Bastaria, pensei, começar a pensar e a agir. Mas não consegui sequer uma ereção. Lembro que, assustado com a neutralidade tátil com que reagiam meus órgãos genitais ao manuseio - neutralidade que logo se transformava em dissabor, e que correspondia a uma indisposição do espírito para o prazer ou o desejo -, adiei por uma ou duas vezes a tentativa. Os dias que se seguiam não traziam nenhuma esperança de que meu corpo e minha mente pudessem se aproximar do milagre rotineiro do sexo, não mais do que aquele do pranto. No entanto, que bênção que seria não apenas ser arrebatado pela tristeza e pelo prazer mas também - e talvez principalmente - ter a experiência física das lágrimas ou de uma ejaculação! Parecia-me que eu seria salvo do horror a que fora submetido se sentisse jorrar de mim esses líquidos que parecem materializar-se a partir de uma intensificação momentânea mas demasiada da vida do espírito. De fato, o pranto e a ejaculação são, por assim dizer, vivenciados como um transbordamento da alma quando esta a um tempo se adensa e se expande, paradoxo interdito à matéria."
Caetano Veloso (livro Verdade Tropical, 1997, pg. 362)
