Esse quarto me incomoda.
As roupas que ficam aqui me incomodam.
Os resquícios do passado me incomodam.
Estar em Sapiranga, de certa forma, me angustia. E é só agora, depois de cerca de 5 meses morando em Porto Alegre, que eu consigo perceber o quanto esse tempo me mudou. Hoje foi a primeira vez que olhei meu quarto, agora bastante vazio em relação ao que era antes, e percebi que eu quase não sinto que ele seja de fato meu.
Tenho vontade de jogar coisas fora, pintar as paredes, mudar tudo de lugar, limpar o que ainda resta. Em contraponto, pensar no meu apartamento simples e mal mobiliado da capital me reconforta, porque ele sim representa quem eu me sinto agora. Ele é cheio de possibilidades, é uma página em branco. Eu gosto do sofá com estampa de zebra ao lado do puff roxo vivo, combinação extravagante. Gosto da cozinha pequena com azulejos antigos, gosto da minha cama de casal com dois travesseiros cujas fronhas não combinam - muito menos o lençol. A escrivaninha cheia de livros - que eu de fato leio - e parede sutilmente enfeitada com desenhos e fotos simetricamente colocados.
Gosto de abrir a porta do prédio e encontrar um vizinho levando o cachorro pra pegar um ar e ver a luz do sol, de abrir a janela da sala e observar a noite boêmia da Cidade Baixa numa sexta à noite. Gosto de cozinhar uma massa tomando vinho barato - que não é grande coisa mas representa a liberdade de beber o que quiser com o dinheiro que é meu -, de fumar um cigarro eventualmente pra relaxar o corpo e dar um tempo pras paranoias da vida adulta. Gosto de lavar minha roupa quando quiser e do jeito que quiser. Gosto de usar o que eu quiser. Gosto de receber meus amigos, de sentar no chão, de voltar a hora que eu quiser sem dar satisfações.
Quando volto me dá uma tristeza. E eu sei que a intenção nunca é chatear, mas eu não consigo evitar sentir-me voltando aos 15 e submetendo-me de novo a essa infantilidade. Digo a mim mesma que melhor ficar calada, concordar e sorrir. Nunca dá certo.
E aos poucos eu percebo que ainda estou amarrada a essa cidade. E eu a amo, mas não mais amo-me nela. Ela me diminui, me subestima, não me leva a sério. E eu vou levando, sabendo que não tenho escolha e que a liberdade é, sim, relativa.
Não desisto de libertar-me do passado que não me agrada, afinal, já cheguei até aqui.
(22 de agosto de 2017. Muito tempo trancafiada em Sapiranga).
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