"Seu cabelo tá bonito assim", ela disse com um olhar tímido enquanto passava algo como a tampinha de uma garrafa de um dedo ao outro, despercebidamente.
Continuava com aquela presença aterrada e envolvente da qual já fui escrava.
"Ah, é? Assim como?", respondi fingindo desinteresse, enquanto por dentro saltavam-me fagulhas confusas de desejo, raiva, ternura, tesão. Fazia um esforço tremendo para controlar o ímpeto de meu corpo, que de um instante a outro poderia tanto sair correndo quanto deitar-se assim despretensioso nos braços da que me falava.
"Tá um pouco mais comprido, né? Você pensa em deixar crescer?"
"Não sei, gosto curto".
"Fica bom também".
Silêncio. Segundos de olhos com medo de se encontrar. Mirando a janela entre suspiros lentos e mão do queixo à mesa, da mesa à coxa, da coxa ao cabelo e assim sucessivamente, uma quase coreografia de corpos em extremo desconforto.
"Eu fiquei muito mal quando você foi embora, sabe?", ela disse, dessa vez sem hesitar em cravar os olhos nos meus.
"O que você queria que eu fizesse?", gosto amargo no peito.
"Não estou te culpando. As coisas são como as coisas são. Só tô dizendo que foi difícil", bebe um gole de café. O olhar não desvia.
"Eu sei", sai quase como um suspiro. "Às vezes fico pensando como seria se..."
"Se você tivesse ficado? Se eu tivesse ido com você? Se a gente nunca tivesse se conhecido? Se os pássaros não voassem ou a energia elétrica nunca fosse inventada? Meu bem, as realidades paralelas não me servem. Eu quero saber do que é real. Do que é carne, do que eu vejo e sinto e ouço. Você é o que eu vejo, sinto e ouço. Aqui e agora", segurou minha mão por cima da mesa e sorriu como se sentisse pena, vendo as primeiras lágrimas caírem dos meus olhos grossas e pesadas e angustiantes.
Ser honesta me era tão difícil naquele momento, pois sentada ali frente a frente tão perto do rosto cuja boca já havia encontrado a minha, minhas mãos tremiam e meus pulmões recusavam-se a respirar normalmente.
"Passei esse tempo todo pensando que voltar pra cá seria diferente", vomitei as palavras sem pensar muito.
"Você realmente acha que isso que temos daria certo?"
"Se você também quisesse..."
"Dani, eu não tenho saúde pra tentar manter algo assim. E sinceramente nem mais vontade. Quem vive de passado é museu e em um ano eu me formo e quero sair dessa cidade viver sem amarras dançar a música que tocar, você entende?"
"Entendo, mas dói."
Novamente o silêncio.
Eu não aguentava tamanha agonia de estar ali parada feito estátua sem saber o que dizer ou como reagir. Queria logo chegar no hotel da esquina e deixar que as lágrimas levassem de mim todo o desejo, e rejeição, e essa ilusão alimentada por meses na minha cabeça ingênua.
Ainda assim, não conseguia sentir raiva. Também por ser compreensiva demais e raramente sentir raiva de alguém, mas principalmente porque no fundo sabia que a responsável por todo esse sofrimento era eu mesma.
"Bom, acho que vou indo...", disse, levantando-me devagar.
"Espere", ela agarrou minha mão. Meu coração deu um salto e se alguém estivesse me vendo de trás, seria capaz de perceber os cabelinhos de minha nuca se arrepiarem. "Ainda não pedimos a conta."
(8 de fevereiro de 2020)