terça-feira, 22 de agosto de 2017

Livre - mas nem tanto

Esse quarto me incomoda. 
As roupas que ficam aqui me incomodam. 
Os resquícios do passado me incomodam.

Estar em Sapiranga, de certa forma, me angustia. E é só agora, depois de cerca de 5 meses morando em Porto Alegre, que eu consigo perceber o quanto esse tempo me mudou. Hoje foi a primeira vez que olhei meu quarto, agora bastante vazio em relação ao que era antes, e percebi que eu quase não sinto que ele seja de fato meu.
Tenho vontade de jogar coisas fora, pintar as paredes, mudar tudo de lugar, limpar o que ainda resta. Em contraponto, pensar no meu apartamento simples e mal mobiliado da capital me reconforta, porque ele sim representa quem eu me sinto agora. Ele é cheio de possibilidades, é uma página em branco. Eu gosto do sofá com estampa de zebra ao lado do puff roxo vivo, combinação extravagante. Gosto da cozinha pequena com azulejos antigos, gosto da minha cama de casal com dois travesseiros cujas fronhas não combinam - muito menos o lençol. A escrivaninha cheia de livros - que eu de fato leio - e parede sutilmente enfeitada com desenhos e fotos simetricamente colocados. 
Gosto de abrir a porta do prédio e encontrar um vizinho levando o cachorro pra pegar um ar e ver a luz do sol, de abrir a janela da sala e observar a noite boêmia da Cidade Baixa numa sexta à noite. Gosto de cozinhar uma massa tomando vinho barato - que não é grande coisa mas representa a liberdade de beber o que quiser com o dinheiro que é meu -, de fumar um cigarro eventualmente pra relaxar o corpo e dar um tempo pras paranoias da vida adulta. Gosto de lavar minha roupa quando quiser e do jeito que quiser. Gosto de usar o que eu quiser. Gosto de receber meus amigos, de sentar no chão, de voltar a hora que eu quiser sem dar satisfações.
Quando volto me dá uma tristeza. E eu sei que a intenção nunca é chatear, mas eu não consigo evitar sentir-me voltando aos 15 e submetendo-me de novo a essa infantilidade. Digo a mim mesma que melhor ficar calada, concordar e sorrir. Nunca dá certo. 
E aos poucos eu percebo que ainda estou amarrada a essa cidade. E eu a amo, mas não mais amo-me nela. Ela me diminui, me subestima, não me leva a sério. E eu vou levando, sabendo que não tenho escolha e que a liberdade é, sim, relativa. 
Não desisto de libertar-me do passado que não me agrada, afinal, já cheguei até aqui.

(22 de agosto de 2017. Muito tempo trancafiada em Sapiranga).

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Relatos das experiências reaprendendo a andar de bike - day one

Primeira experiência andando de bicicleta na vida real. Não pensei que fosse ficar atordoada com algo que considero tão banal, mas de fato o primeiro dia me deixou bastante nervosa (cheguei em casa e caí morta - dormi como uma pedra por mais ou menos uma hora).
O início foi tranquilo, escolhi um caminho que já sabia ser menos movimentado, evitando as maiores avenidas da cidade - e olha que tô falando de Sapiranga, se fosse Poa eu tava fodida.
A sensação inicial foi uma mistura de liberdade com o nervosismo de se estar responsável não só por você, mas por todo um sistema que funciona e corre e grita e precisa estar funcionando o tempo todo. Pedalar na ciclovia me deixou tranquila e leve. O vento na cara, sem muita gente e sem as amarras de tempo e espaço. Eu me permiti só curtir o momento de primeiros passos, um bebê que depois de arriscar-se devagar descobre que consegue muito mais que pensa e se entrega à coragem de ir ao mundo.
Enfim, decidi dar meia-volta e fazer o caminho contrário, achando já suficiente e satisfatório o primeiro dia em cima de duas rodas. Eis que decido tomar um caminho um pouco diferente, indo por uma das principais avenidas. Comecei a me sentir insegura. A avenida corria nas duas mãos e carros estacionavam dos dois lados, fazendo com que assim o espaço disponível pra minha insignificância se tornasse bastante estreito e eu começasse a ziguezaguear pelo trajeto. Tinha medo de bater nos carros a minha frente e mais medo ainda de ser atingida pelos que vinham atrás de mim.
A sensação de liberdade deu lugar a primeira realização de que eu estava num de mar de monstros: a potência que um carro, um caminhão ou uma moto têm são enormes comparados à minha bicicletinha, e diferentemente de quando eu ando a pé, eu não tinha controle total do que eu fazia. Eu não tava segura, e a minha insegurança arrastava mais ainda minha lentidão no caminho e irritava aqueles que já não tinham paciência pra crianças na sua frente.
Um caminhão passou por mim e mandou uma buzina estridente no meu ouvido (ele era enorme, quando passou do meu lado juro ter puxado o ar pra diminuir a barriga e ter mais certeza de que caberia no espacinho). Fiquei nervosa e decidi que iria pra calçada. Ao tentar entrar, quase bati na frente de um carro que saía da garagem. Gritei mil desculpas e felizmente quem o diria era uma senhora simpática, que muito se desculpou também. Andei mais um pouco com a bike na calçada, respirei, mas logo me senti culpada (não sabia se podia estar pedalando ali) e desci, empurrando-a por um tempo,
Até cheguei a subir na bike e andar as últimas quadras nela, e foi uma decisão sensata, pois me permitiu ter na memória uma última lembrança boa dessa primeira experiência. Cheguei em casa com um bilhão de pensamentos correndo loucos na minha cabeça.
Não desisti. Acordaram em mim milhares de ideias e sensos e vontades, e eu precisava desse susto pra entender que o que eu quero passar a fazer, por mais simples que pareça, exige presença do corpo e mente sem igual. Quero mais, e pra isso decidi tomar algumas atitudes de aprendiz: observar na rua aqueles que andam (especialmente como fazem pra se encaixar nos buracos das ruas estreitas com carros a mil), ler (sobre as leis - posso ou não posso andar na calçada? - e sobre qualquer coisa que possa fazer sentido) e continuar. Evitar essas avenidas por enquanto, mas tentar lugares e me aventurar aos poucos.
Me sinto uma criança de novo. E é bom demais.

14 de agosto de 2017 - Sapiranga.

domingo, 6 de agosto de 2017

A linha tênue entre sonhar e viver

Como se sabe quando se está vivendo um sonho?

Por que se aprende tanto a sonhar mas não se aprende a reconhecer o sonho vivido?

Caralho, já passamos da metade do ano. É impossível não parar, agora que a loucura de fim de semestre acabou, e pensar sobre a surpresa que esse ano tem sido.
Fico feliz em constatar que eu finalmente tô vivendo sem muitos planejamentos. Me surpreende ter tido a coragem e consciência de largar um emprego fixo com grana boa por simplesmente saber ter muito mais a desenvolver.
Aliás, me surpreende as experiências inesquecíveis que eu tive viajando de forma tão relaxada e sem pré-determinações.
Enfim, sobre isso já se fez bastante registro e, de resto, o importante se guarda no interno. O que me pega mesma quando penso nisso é que eu tô possivelmente vivendo a vida que eu sempre quis e constantemente não dou o valor que eu deveria a ela. É difícil perceber que se está vivendo um sonho quando ele de fato acontece.
A questão é que viver o sonho não significa que tudo vai ser perfeito. É sonho, mas ainda é vida. E aí quando me vejo mais reclamando do que curtindo esse momento de tamanha conquista é que eu percebo o quanto a gente se torna ingrata e insensível quando em frente a uma multidão de responsabilidades da vida adulta.
E a vida não acaba quando se chega no sonho. Ela acontece. Ela vibra. Ela DANÇA. Mas ela não acaba, e o sonho já não é mais sonho. O sonho é vida. Por isso não se percebe, se deixa ir em poucos segundos entre o que pode ser e o que é.
Então, não vivamos o sonho. Vivamos o agora, celebremos o instante, a falta de fôlego.
É mais palpável que qualquer sonho.

(29 de julho de 2017. Living the dream! - and honestly, it's just life the way it is).

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Prosa de fim de viagem

Essa viagem me fez experimentar uma série de sentimentos que eu nem sabia que eu podia sentir.
Também e talvez principalmente porque ela aconteceu ao mesmo tempo que tantas outras mudanças intensas, e por mais que eu não possa dizer exatamente o que veio primeiro (ou qual desencadeou qual), nada me parece mais certo do que dizer que tudo tá conectado da forma mais sutil e poderosa.
De qualquer forma, mais do que os sentimentos bons e sensações de liberdade, independência, plenitude e reconstrução de mim mesma (que querendo ou não eu já estava esperando), os momentos ruins possivelmente representaram muito mais verdadeiramente as lições que vou tirar dessa viagem.
É difícil aceitar a "derrota", que por menor que seja nos afeta e nos é incompreensível, e cada vez mais minhas experiências na vida (que não têm sido poucas) me ensinam que tá sempre tudo bem.
Perspectivas mudam tudo. Tem tanta gente boa, linda e cheia de vida por aí, e essa viagem me faz seguir em frente buscando essas pessoas e cada vez me aproximar mais daquilo que eu realmente acho certo e me faz bem.

Último dia na Europa. Em Hamburg Stadtpark, no mais sincero sorriso por estar sendo fotografada pela alemã mais linda e interessante que eu poderia conhecer. O sol apareceu nesse dia depois de uma semana de tempo cinzento e sem graça: refletiu meu espírito grato e minha mente reconstruída.


(10 de fevereiro de 2017)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carta aberta sobre a dificuldade de aceitar nossas rel(ações)

Só vim dizer que não me arrependo. Não me arrependo e não vou seguir me desculpando. Lidar com o sentimento dos outros é sempre delicado e complexo, mas lidar com o nosso próprio é um labirinto sem fim.
Eu era nova e ainda muito ingênua, mas não me arrependo de ter te amado. Me jogar de cabeça na tua loucura foi uma das coisas mais libertadoras que eu já fiz. Não vou pedir desculpas por ter demonstrado, nem pelo brilho nos meus olhos, nem pela adrenalina do desconhecido. Te ter era excitante, te descobrir me alimentava. E por mais que tu tentes destruir essas memórias, eu sei que elas são tão vivas em ti quanto em mim.
Ainda assim, nada disso muda todo o resto. Da mesma forma que não me arrependo de ter te adentrado, também não guardo remorsos por ter me desprendido. Por muito tempo eu não entendi o que aconteceu comigo pra afetar alguém da forma que eu te afetei, mas eventualmente eu percebi que a intensidade da tua dor não silenciava a minha, e os meus impulsos e desejos não me desvalorizavam.
Não peço perdão porque hoje eu entendo que o bem e o mal se relativizam quando pensados parte de relações humanas, não perfeitas e em constante busca. Os meus erros me ensinam, mas não me definem e, sinceramente, me parecem bastante compreensíveis quando lembro o quão psicologicamente presa a ti eu estava. O que começara como amor se transformou apenas em consideração e medo de te machucar, que colocando em palavras soam tão desumanos mas que eram, talvez inconscientemente, regados por ti.
Hoje ainda me é difícil te ver e entender como eu me sinto - não em relação a ti, mas sim a mim. Constantemente reforço-me a ideia de que a tua felicidade não significa a minha miséria e vice-versa, e que as casualidades da vida não devem me manter presa a uma única pessoa.
Eu não peço desculpas, mas eu não te condeno. Reconheço que criamos essa situação pra nós mesmas e que nossas ações foram meras consequências de um relacionamento alimentado de forma inconsequente e imatura.
A ferida fica. As lembranças também. Logo eu desapego dessa necessidade de me reafirmar pra ti e entendo que nem todo caminho que se cruza com o meu precisa me aceitar e me entender.
Pra ti, felicidade e crescimento. Pra mim, nada mais justo que o mesmo.

(10/07/2017 - é realmente muito difícil lidar com pessoas)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Soma & Trajeto

É gostoso pensar no pulo que minha vida deu de um tempo pra cá. A velocidade com que as coisas foram mudando e a trajetória que elas foram fazendo me parecem absurdas, mas no fundo eu sei que tudo isso só se tornou possível porque eu dei espaço para que fosse assim. Eu me permiti, eu aceitei o andamento inevitável e não hesitei em tomar decisões importantes - mas felizmente nunca definitivas. Escrevendo isso me vem a imagem de um corpo criando espaço entre seus ossos pra que os músculos se alonguem e se torne uma casa mais leve e saudável. É um processo doloroso, mas a dor que causa é boa e de certa forma prazerosa;  é o psíquico consciente de que o benefício da soma faz o sofrimento valer a pena. E dessa forma o sofrimento já não existe mais, apenas o sentir. Deixar que as experiências tenham seu efeito em nós e não lutar contra o curso natural que isso cria.  Não há manual de como viver, mas seguimos tentando.

{eu sou o meu próprio lar}

(06.07.2017 - The Fools. Tentando entender quando foi que tudo isso aconteceu).

Sensibilidades - França

25.01.2017
Apenas 5 dias que eu saí de casa pra vir pra Europa e já tive experiências pra vida toda. O desespero de me encontrar sozinha num país onde ninguém fala a minha língua, eu não sei como as coisas funcionam e, sinceramente, ninguém tá nem aí, foi um tapa na cara. O pensamento de "vamos fazer isso dar certo" foi constante e mais uma vez apenas confirmei que sair da zona de conforto é horrível, mas a recompensa é renovadora, nos enche de energia. Aliás, resolver problemas muito rápido tem sido crucial nesse viagem. Minha capacidade de quick thinking e fast action se desenvolveu de todas as formas possíveis. Desde achar um lugar pra passar minha primeira noite até conseguir encontrar sozinha a estação de trem.
Das coisas que quero me lembrar, certamente a forma como a Maëlle vive com os flatmates. Simplicidade e melhor: sinceridade pra si mesmo e pros outros. Uma vida mais leve e menos planejada (tudo bem que eu não conseguiria viver uma vida não planejada, mas pelo menos a ideia é bom levar, pra não ficar preso na própria realidade). Andar de bicicleta depois de anos (cair, sim, mas só pra ter história pra contar). A vista dessa região, que é cheia de construções antigas, árvores altas e secas e pôr do sol arrasador. Sinto que essa viagem se tornou mais especial por ter sido diferente do que se espera de quem vai pra França. Andar de bicicleta pelo canal de Rennes também é algo que não dá pra esquecer. Ana, que é voluntária num campo de refugiados, Joakim, que luta contra a violência desumana nas prisões e o cara do bar que me deu comida de graça depois que eu tentei pedir uma cerveja em francês.
Pegar ônibus aqui também tem sido uma experiência diferente, especialmente sozinha. Diferente porque genuína, porque viajar é isso. Viajar é conhecer novas realidades e se sentir parte de um mundo o qual você não conhece. É a fuga do conhecido e confortável. É a aceitação do que não te faz parte (mas agora vai fazer). Viajar não tem a ver com os lugares que você visita, tem a ver com como você reage e se relaciona com a vida que existe nesses lugares, e quanto disso te faz aprender e crescer. O ápice de uma viagem não são as fotos chiques ou as compras internacionais, são as cervejas no bar, a caminhada pela cidade, as conversas que mudam. 
Tudo isso, apenas 5 dias. 15 ainda por vir e a animação se mistura com o medo do novo. Mas medo bom, porque torna a experiência ainda mais intensa. Hoje é dia de voltar pra Paris de trem, pegando metrôs e ônibus até a casa da Marie. Parte de mim não quer sair do conforto da cama na casa da Maëlle, enquanto outro parte grita por adrenalina. 

29.01.2017
Já sinto quase como se fosse moradora de Paris. Já sei pegar metrô, consigo me comunicar, sei as ruas e conheço o bastante pra sair sozinha sem problemas. A experiência de fazer algumas coisas turísticas sozinha foi interessante. É um bom exercício de auto suficiência, mas com certeza quando tive companhia, as experiências foram melhores. Às vezes sinto falta de ter alguém próximo pra poder dividir esses momentos, mas ao mesmo tempo sei que estar sozinha me faz conhecer novas pessoas e ter uma viagem bem genuína. Paris é uma cidade linda e cada canto que eu olho eu me apaixono mais, mas o que essa viagem tem me ensinado é que viajar é bom e nos enche de aprendizados, abre nossa cabeça, nos traz mais vida e vontade de viver, mas o aconchego da minha casa, do meu trabalho, da minha realidade me faz falta. Aqui eu percebi que o que eu tenho no Brasil não é pouca coisa, são grandes oportunidades e pessoas incríveis. Hoje é meu último dia em Paris e eu sei que vou sentir falta dessa cidade. O baguete, os metrôs, as pessoas elegantes e o cigarro tranquilo. Ainda me faltam quase duas semanas de viagem e eu realmente espero que tudo continue nesse ritmo de novas descobertas e relações intensas.

30.01.2017
No aeroporto esperando meu voo pra Hamburgo, e novamento diversos pensamentos tomam conta de mim, refletindo sobre o tempo que passei na França. É incrível o que o ser humano é capaz de construir, e estar numa cidade grande, onde tanta coisa funciona e onde as grandes construções já não importam pra ninguém me mostra o quão grande o mundo é, mas ao mesmo tempo o quão pequena nossa alma tem se tornado. Os momentos que mais valeram a pena pra mim aqui foram as coisas mais simples que se pode imaginar: ir no cinema, conhecer um bar gay (que talvez tenha sido uma das partes mais interessantes, saber um pouco de como a comunidade lgbt vive em paris e ver a diversidade e beleza que existe na nossa existência) e dançar com desconhecidos. Eu gostaria de ter apenas tido mais tempo com o que existe de alternativo na cidade. As belas e enormes belezas urbanas tiram meu fôlego mas não enchem minha alma. Não quero esquecer das coisas que aprendi com a Marie, a organização e a decoração em morar sozinha. Também não quero esquecer a comida na França, como eles tornam as coisas mais simples em algo importante e crucial: pão e queijo, crêpes, temperos, vinho. Essa viagem também me encheu de vontade de ser mais autêntica e original, de firmar minha identidade como pessoa e artista, nas minhas relações e na vida profissional. Me deu vontade de criar e valorizar mais o que é feito por nós mesmos e de procurar aumentar meu conhecimento sobre as habilidades que posso desenvolver. Certamente me sinto mais humana.