segunda-feira, 23 de março de 2020

Café nº 2

"Seu cabelo tá bonito assim", ela disse com um olhar tímido enquanto passava algo como a tampinha de uma garrafa de um dedo ao outro, despercebidamente.
Continuava com aquela presença aterrada e envolvente da qual já fui escrava.
"Ah, é? Assim como?", respondi fingindo desinteresse, enquanto por dentro saltavam-me fagulhas confusas de desejo, raiva, ternura, tesão. Fazia um esforço tremendo para controlar o ímpeto de meu corpo, que de um instante a outro poderia tanto sair correndo quanto deitar-se assim despretensioso nos braços da que me falava.
"Tá um pouco mais comprido, né? Você pensa em deixar crescer?"
"Não sei, gosto curto".
"Fica bom também".
Silêncio. Segundos de olhos com medo de se encontrar. Mirando a janela entre suspiros lentos e mão do queixo à mesa, da mesa à coxa, da coxa ao cabelo e assim sucessivamente, uma quase coreografia de corpos em extremo desconforto.
"Eu fiquei muito mal quando você foi embora, sabe?", ela disse, dessa vez sem hesitar em cravar os olhos nos meus.
"O que você queria que eu fizesse?", gosto amargo no peito.
"Não estou te culpando. As coisas são como as coisas são. Só tô dizendo que foi difícil", bebe um gole de café. O olhar não desvia.
"Eu sei", sai quase como um suspiro. "Às vezes fico pensando como seria se..."
"Se você tivesse ficado? Se eu tivesse ido com você? Se a gente nunca tivesse se conhecido? Se os pássaros não voassem ou a energia elétrica nunca fosse inventada? Meu bem, as realidades paralelas não me servem. Eu quero saber do que é real. Do que é carne, do que eu vejo e sinto e ouço. Você é o que eu vejo, sinto e ouço. Aqui e agora", segurou minha mão por cima da mesa e sorriu como se sentisse pena, vendo as primeiras lágrimas caírem dos meus olhos grossas e pesadas e angustiantes.
Ser honesta me era tão difícil naquele momento, pois sentada ali frente a frente tão perto do rosto cuja boca já havia encontrado a minha, minhas mãos tremiam e meus pulmões recusavam-se a respirar normalmente.
"Passei esse tempo todo pensando que voltar pra cá seria diferente", vomitei as palavras sem pensar muito.
"Você realmente acha que isso que temos daria certo?"
"Se você também quisesse..."
"Dani, eu não tenho saúde pra tentar manter algo assim. E sinceramente nem mais vontade. Quem vive de passado é museu e em um ano eu me formo e quero sair dessa cidade viver sem amarras dançar a música que tocar, você entende?"
"Entendo, mas dói."
Novamente o silêncio.
Eu não aguentava tamanha agonia de estar ali parada feito estátua sem saber o que dizer ou como reagir. Queria logo chegar no hotel da esquina e deixar que as lágrimas levassem de mim todo o desejo, e rejeição, e essa ilusão alimentada por meses na minha cabeça ingênua.
Ainda assim, não conseguia sentir raiva. Também por ser compreensiva demais e raramente sentir raiva de alguém, mas principalmente porque no fundo sabia que a responsável por todo esse sofrimento era eu mesma.
"Bom, acho que vou indo...", disse, levantando-me devagar.
"Espere", ela agarrou minha mão. Meu coração deu um salto e se alguém estivesse me vendo de trás, seria capaz de perceber os cabelinhos de minha nuca se arrepiarem. "Ainda não pedimos a conta."

(8 de fevereiro de 2020)

Café nº 1

Sentei sozinha na mesa do café. Na dúvida se deveria ou não pedir uma bebida pra refrescar a garganta nesse calor de janeiro em plena Salvador, passava os olhos pelas estantes transbordando livros, numa bagunça organizada que tanto combinava com as almofadas de cores várias mas tons outonais, assim como com as singelas mesinhas de madeira e a senhora de avental estampado e cabelo grisalho sorrindo pra mim atrás do balcão.
Decidi pedir. Soda italiana de maçã verde. Achei elegante. O canudo não era de plástico descartável. Elegante e sustentável.
Não sabia bem o que fazia ali, mas de certa forma parecia fazer sentido. Fazia tempo que não me desprendia do sentido concreto das coisas. Nesse momento, o tempo parecia perder sua função, dissipar-se num limbo quase flutuante, em que os pensamentos também não faziam questão de seguir uma viagem lógica. Algumas horas antes havia chorado sozinha vislumbrando o mar. Por mais deprimente que pudesse parecer, também me fazia sentido.
Chorava de saudades e pela angústia de sentir-me perdendo algo. Meu pensamento insistia em trazer de volta passados que meu coração parecia negar-se a deixar no seu devido lugar de coisa que já passou. Impressiono-me a experimentar na pele, no olho e no toque a extrema divergência de espaço e tempo e como eles, por mais cúmplices que sejam das danças dessa vida, podem perder-se um do outro tão facilmente a ponto de criar nós em nossas linhas tão bem posicionadas de planejamento.
Mas de volta ao café. Já não chorava mais. Sorria. Mas um sorriso assim de canto de boca, de gente tranquila que por falta do que fazer sorri assim meio sem querer. Bebia a soda italiana lentamente, sentindo o gás cortando o corpo adentro, quase como um choque gélido. Era uma sensação estranha que fazia um tempo não sentia. Havia algo de inteiro em estar ali, naquele café escondido no Porto da Barra, com um leve sorriso solto e não bebendo de canudo plástico. 
Olhei pela janela afora, diretamente em direção ao mesmo mar que antes me lavava as lágrimas dos olhos, e com um suspiro quase despercebido finalmente me dei conta do que gritava em minha frente: o vazio que eu sentia não era saudade daquelas de meu passado. Era de mim mesma que meu corpo sentia falta.

(3 de fevereiro de 2020)

domingo, 22 de março de 2020

Tormenta

Se eu fosse contar a quantidade de mulheres que me atravessam, será que daria pra medir o nível da minha angústia?
Que drama, penso eu. Que força tem minha dor perto da imensidão do mundo, ou talvez quantos são os sorrisos que se abrem a cada lágrima minha, ou ainda quantos são os braços que se enlaçam na alegria do reencontro a cada vez que meus olhos se despedem, cansados, de mais um rosto lindo com a iludida promessa de algo a mais estampada quase escancarada a rir da minha esperança miserável.
De cada gole de cerveja, de cada toque sutil na mão com intuito de guiar um giro tímido e quem sabe um sorriso envergonhado, de cada olhar de canto do olho, me saem borboletas a voar na mente ocupando um vazio que insiste em tomar conta do meu peito e que mesmo por tamanha potência criativa e de vida que sei que tem, me atormenta o sono e o tempo.
Minha escrita pede sofrimento. Meu coração pede paz.

(26 de janeiro de 2020)

La nordestina

Caí na velha história da nordestina cheia de ginga e o coração gigante e o corpo suado e o sotaque que me deixa toda boba sem vontade de ir embora.
Fui.
Agora não sei como voltar.
Queria acreditar numa história de filme cheia de voltas e sofrimentos só pro final feliz chegar e acalentar os corações sem esperança.
Meu coração segue indeciso.
É difícil não amar a nordestina. Difícil não querer acompanhá-la com olhos brilhando por ver a elegância, a exuberância e a determinação daquela mulher, com o imenso prazer de saber-me cúmplice de tal esplendor de ser humano.
Sei o que devo sentir. E conheço meu coração mole que abraça mesmo se envenenando. Sofre devagar, um sofrimento que escorre lento quase despercebido na tranquilidade da rotina. Me contento em vê-la feliz, a nordestina que me desconcerta.

Logo a nordestina passa.
Ainda bem que a nordestina veio.

(4 de janeiro de 2020)

Sozinhez

lentamente
reaprendo
a me ver

só me ver
em linhas tortas
retas curvas
cambaleio
e nos meus traços projeto
a trajetória
de
ser,

e ampliar minha sozinhez
e ser mais do que se fez
e dançar mais uma vez
se meu corpo pede festa
barulho em si mesmo
que besta seria eu
de calar os seus gracejos.

(14 de dezembro de 2019)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Whole picture

Look at the whole picture.

It's impossible to be perfect
in all your relationships
at all times.

That doesn't mean you're a bad person.
It only means you're alive.

31 de julho de 2019.

Feminino

Sinto como se pudesse ver algumas partes minhas se desgrudando e sendo levadas pelas ondas do mar.
Dói.
Mas se olho com atenção, no horizonte encontro, emergindo das águas, uma nova possibilidade de mim.
Há tanto tempo prego uma frequência que, mal sabia eu, nem a mim mesma cabia. Mas finalmente encontrei caminhos, pelas águas, pela terra, pelo fogo, pela arte e, principalmente, pelo feminino, pra buscar minha essência e minha intuição.
Eu me amo.
Me amo inteiramente, com todas as minhas falhas, toda minha consciência e inconsciência. Amo meu corpo e o que ele representa. Minha matéria, meu conteúdo.
Amo minhas possibilidades. Amo o que me espera e o que me transforma.
E assim já é.

02 de julho de 2019.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Objetivo e neutro


O que se perde em um instante de silêncio? E mais ainda, o que se ganha?

Sentir é subjetivo. Arte pressupõe poética. Emoção parte de dentro, mas encontra abrigo fora. Nada na dança é objetivo.
Nada no movimento é neutro. Nenhuma palavra é vazia.
Vivenciar arte é uma constante busca por aquilo que não se pode medir.

Acessibilidade em Trânsito Poético - 26 de abril de 2019

sábado, 13 de abril de 2019

Tempo espiralado

Escutar o corpo e respeitar seu próprio tempo é uma tarefa difícil. Nem sempre aprendemos isso quando aprendemos dança.

O que há de movimento na pausa?
O que a pausa propõe no movimento?
O movimento parte da pausa.
A pausa evidencia o movimento.

A partir da compreensão do que sou eu e do que me faz sentido é que busco a experiência cotidiana do movimentar-me. Não me parece estranho que o caminho até essa consciência seja árduo, já que a vida inteira aprendemos a pensar com a mente, mas nunca experimentamos pensar com o corpo. Assim que venho tentando pensar, quando possível.
Então me aproximo de um novo espaço. Da mesma forma como meus antepassados se aproximaram há 200 anos. Relacionar nossas angústias é espiralar-me no tempo, e assim me sinto menos sozinha. Logo me vêm à cabeça a imagem das outras duas partes de minha trança de gente. A força feminina que me alicerça. Percebo a segurança que elas sentem naquele espaço, e pela primeira vez imagino como foi construído esse caminho.

Aí então entendo que sempre fui força aterrada.
Hoje, porém, sou descontrole sutil.

Registro da experiência na aula de Estudos dos Processos Criativos III, dia 11 de abril de 2019. Escrito dia 13 de abril de 2019.

sábado, 6 de abril de 2019

SalvaJam de perguntas infinitas

Quais as relações que crio em Salvador?
E mais ainda, como me relaciono comigo mesma?

Por que escolhi a arte?
Seria possível viver sem ela?
E, de qualquer forma, será possível viver (d)ela?

Transbordo.
Não sei o que fazer com tudo que sai de mim.
Se deixo aqui, me afogo.
Mas onde encontro lugar pra desaguar tudo que grita em meu corpo?

Sou feliz porque a arte me escolheu.
Porque sou livre e me permito ser.
Porque aprendi a não duvidar do meu corpo,
a não privá-lo,
a rir à toa.
Chorar também.

Viver com arte me torna mais humana todos os dias.

Em Salvador, o quê falta?
 Por que não me deixo viver plenamente meu corpo, seus desejos e angústias?

Das coisas do mundo, eu quero as mais simples. Onde elas se perdem?

Sigo fazendo perguntas que não sei responder. Vivo no intuito de encontrar respostas.
As dúvidas me movem.
Mover é pulsar.

5 de abril de 2019

Solidão

Obrigo-me a me enxergar
é desesperador
e reconfortante
estar



É um mergulho de olhos fechados
e percepções abertas

Gosto de me encontrar sozinha
Gosto das lágrimas
da melancolia
da necessidade de afeto
porque me sussurram
que estou v i v a
e que sou i n t e i r a

Inteiramente constituída de partes
que perco, muitas vezes
troco
quebro
Mas que ficam, mesmo que invisíveis
permanecem na pele
na carne
no                                                  GRITO

E deito, tranquila

para amanhecer

Sol

4 de abril de 2019

Trânsito poético


O olho capta luz e a transforma em imagem.
A pele capta toque e o transforma em textura.
O ouvido capta ondas sonoras e as transforma em som.
A língua capta gosto e o transforma em sabor.
O nariz capta ar e o transforma em cheiro.
O corpo é movimento e o transforma em dança.

6 de abril de 2019

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Privado

se tudo há de ser privatizado
diga-me o que será de mim
que vivo de amores públicos

07/02/2019

Sutil corpo

Qual o teu limite de espaço?
O que teus braços não alcançam?
Até que ponto dançam seus olhos, sem que seus pés se deixem levar?
São essas as sutilezas do teu corpo
que eu quero descobrir.

07/02/2019

Perguntas

não me pergunte onde moro,
pergunte-me onde moram meus amores.
não me pergunte o que estudo,
pergunte-me o que estudam minhas angústias.
não me pergunte qual minha profissão,
pergunte-me sobre a profissão de minhas lágrimas.
não me pergunte que caminho percorro,
pergunte-me sobre o caminho percorrido pelos meus dedos, até entrelaçarem os teus.
aliás, não me pergunte sobre nada.
deixe-me te mostrar.

07/02/2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Relato das experiências reaprendendo a andar de bike - day two


Passou-se mais de ano desde o primeiro dia que subi numa bicicleta decidida a tornar tal situação um hábito. Mesmo animada com a experiência inicial, algo sempre me impediu de seguir a prática.
Hoje, sozinha em casa, com o compromisso de ir até o centro da cidade para encontrar uma menina rapidamente, decidi encarar a bike de novo. Dessa vez, disse a mim mesma que não tornaria a ação toda em algo maior do que realmente é.
Em princípio, não quis pegar a bicicleta da minha mãe, por ter sido muito cara e por ser mais recomendada para ciclismo. Infelizmente, a de meu pai estava com o pneu murcho e não tive outra escolha.
O início foi revigorante. Dessa vez, o vento que batia em meu rosto era incrivelmente quente, mas ainda assim trouxe a sensação de liberdade. Como prometido a mim mesma, passei esse último ano e meio  observando bicicletas e ciclistas, suas escolhas de trajeto, suas esperas, seus ritmos e suas presenças. Só essa pequena observação já transformou muito a forma como me coloquei no trânsito. Já calculei rotas anteriormente, esperei quando necessário, acelerei quando assim parecia mais útil. Fui mais confiante, mais cuidadosa e mais precisa.
Em determinado cruzamento, pisei errado no pedal. Me desajeitei, fiquei envergonhada, mas logo me reorganizei e segui. Duas quadras depois, já mais tranquila, comecei a ter problemas com o pedal. Sim! Consegui fazer, de alguma forma, a corrente da bicicleta sair do movimento central. Terminei o trajeto empurrando a danada e pensando no que teria que fazer pra recompensar minha mãe depois dessa pequena cagada.
Me deu vontade de escrever de novo. Transformei, mais uma vez, uma coisa tão simples em algo mega impactante e poético. Mas, sendo sincera, esse processo tem sido importante pra mim. Foram poucas vezes, mas algo em mim muda quando me coloco nessa posição. Sinto que é algo que tem o potencial de me mudar, mudar a forma como me relaciono com o espaço e o meu corpo.
Pensem o que quiserem. Ninguém lê isso mesmo.

30/01/2019

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Burden

leaving her is hard. how can one let go of the comfort of warm arms to face the rudeness of a crazy city?

it doesn't seem fair that a person whose only wish is to love, and to love widely, has to deal with the burden of not being able to do so.

1/01/19

Tu inteira

adoro quando nossos corpos se tornam fluidos. onda incessante de calor, pele de pelos eriçados de tanto amar.
meu corpo te chama pelo nome, meus lábios já conhecem teu gosto, tua voz é como canção que me abraça.

tu inteira é banho quente de suor.

30/12/18

Lar de Liberdade

nesse apartamento, tudo resumido a caixas.
matérias
memórias
manias
um pouco de mim em cada sacola, que leva o meu grito abafado pelo cupim no chão molhado no qual miro meu reflexo e choro.
o pranto cai como essa água da geladeira desligada, inútil, pesada. o sofá ainda escorado na mesma parede, mas onde não mais sentarão as mesmas pessoas enérgicas e cheias de vida, porque o espaço é apenas cúmplice do que existe bem mais no fundo, e bem menos concreto.
sinto que perco esse abstrato junto com meu primeiro lar de liberdade. já não tenho pra onde fugir, por hora. agora é carregar no peito lembranças e torcer para que sejam fortes o bastante pra manter viva a intensidade de ser independente aonde quer que for.
porque antes o que fora lar de crescimento, descoberta, reconforto, representa agora angústia e medo. e ele ainda está lá, na mais estável concretude.
meu lar de liberdade se esvai enquanto espaço, mas vai embora com a certeza de que fez o seu papel.

meu lar de liberdade, agora, sou eu mesma.

29/12/18

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Natal freudiano

meu berço despedaça o que há de político em mim
me alimenta de resiliência, força que cansa
ainda assim, minha mente dança
a luta se rega em lágrimas,
mas a certeza não balança.

25/12/18