quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Lar de Liberdade

nesse apartamento, tudo resumido a caixas.
matérias
memórias
manias
um pouco de mim em cada sacola, que leva o meu grito abafado pelo cupim no chão molhado no qual miro meu reflexo e choro.
o pranto cai como essa água da geladeira desligada, inútil, pesada. o sofá ainda escorado na mesma parede, mas onde não mais sentarão as mesmas pessoas enérgicas e cheias de vida, porque o espaço é apenas cúmplice do que existe bem mais no fundo, e bem menos concreto.
sinto que perco esse abstrato junto com meu primeiro lar de liberdade. já não tenho pra onde fugir, por hora. agora é carregar no peito lembranças e torcer para que sejam fortes o bastante pra manter viva a intensidade de ser independente aonde quer que for.
porque antes o que fora lar de crescimento, descoberta, reconforto, representa agora angústia e medo. e ele ainda está lá, na mais estável concretude.
meu lar de liberdade se esvai enquanto espaço, mas vai embora com a certeza de que fez o seu papel.

meu lar de liberdade, agora, sou eu mesma.

29/12/18

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