sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Natal freudiano

meu berço despedaça o que há de político em mim
me alimenta de resiliência, força que cansa
ainda assim, minha mente dança
a luta se rega em lágrimas,
mas a certeza não balança.

25/12/18

Outubro de 2018

como podem me dizer
que tudo vai ficar bem
"não precisa exagerar,
tudo logo vai passar"

como podem olhar nos meus olhos
segurar minha mão
enlaçar-me em um abraço
pedindo minha compreensão
de que eu já antes sofria
como se minha atual agonia
não fosse real
e embasada
e lambusada
no peito.

se antes havia receio
como esperam que eu me sinta
vendo que mesmo em meu meio
aqueles que eu olhava com respeito
às vezes até mesmo afeto
ignoram minha voz
e me dizem pra ter esperança
e que sim, fazem isso por mim
que entendem minha dor
que também sentem meu medo

e eu acho até engraçado
que o discurso deles abafa
meu choro desesperado.



o medo que eu sinto
não corresponde
a nem metade
do amor que eu tenho.


13/10/18 

domingo, 7 de outubro de 2018

Fluidos

"(...) seria apenas necessário tomar a atitude deliberada de induzir-me rapidamente a um orgasmo. Bastaria, pensei, começar a pensar e a agir. Mas não consegui sequer uma ereção. Lembro que, assustado com a neutralidade tátil com que reagiam meus órgãos genitais ao manuseio - neutralidade que logo se transformava em dissabor, e que correspondia a uma indisposição do espírito para o prazer ou o desejo -, adiei por uma ou duas vezes a tentativa. Os dias que se seguiam não traziam nenhuma esperança de que meu corpo e minha mente pudessem se aproximar do milagre rotineiro do sexo, não mais do que aquele do pranto. No entanto, que bênção que seria não apenas ser arrebatado pela tristeza e pelo prazer mas também - e talvez principalmente - ter a experiência física das lágrimas ou de uma ejaculação! Parecia-me que eu seria salvo do horror a que fora submetido se sentisse jorrar de mim esses líquidos que parecem materializar-se a partir de uma intensificação momentânea mas demasiada da vida do espírito. De fato, o pranto e a ejaculação são, por assim dizer, vivenciados como um transbordamento da alma quando esta a um tempo se adensa e se expande, paradoxo interdito à matéria."
Caetano Veloso (livro Verdade Tropical,  1997, pg. 362)

Inundada

azuis os olhos
que me olham
despem meu medos
abraçam-me
como se fossem mar
e eu
terra seca.

(7 de outubro de 2018. ma divine femme)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Livre - mas nem tanto

Esse quarto me incomoda. 
As roupas que ficam aqui me incomodam. 
Os resquícios do passado me incomodam.

Estar em Sapiranga, de certa forma, me angustia. E é só agora, depois de cerca de 5 meses morando em Porto Alegre, que eu consigo perceber o quanto esse tempo me mudou. Hoje foi a primeira vez que olhei meu quarto, agora bastante vazio em relação ao que era antes, e percebi que eu quase não sinto que ele seja de fato meu.
Tenho vontade de jogar coisas fora, pintar as paredes, mudar tudo de lugar, limpar o que ainda resta. Em contraponto, pensar no meu apartamento simples e mal mobiliado da capital me reconforta, porque ele sim representa quem eu me sinto agora. Ele é cheio de possibilidades, é uma página em branco. Eu gosto do sofá com estampa de zebra ao lado do puff roxo vivo, combinação extravagante. Gosto da cozinha pequena com azulejos antigos, gosto da minha cama de casal com dois travesseiros cujas fronhas não combinam - muito menos o lençol. A escrivaninha cheia de livros - que eu de fato leio - e parede sutilmente enfeitada com desenhos e fotos simetricamente colocados. 
Gosto de abrir a porta do prédio e encontrar um vizinho levando o cachorro pra pegar um ar e ver a luz do sol, de abrir a janela da sala e observar a noite boêmia da Cidade Baixa numa sexta à noite. Gosto de cozinhar uma massa tomando vinho barato - que não é grande coisa mas representa a liberdade de beber o que quiser com o dinheiro que é meu -, de fumar um cigarro eventualmente pra relaxar o corpo e dar um tempo pras paranoias da vida adulta. Gosto de lavar minha roupa quando quiser e do jeito que quiser. Gosto de usar o que eu quiser. Gosto de receber meus amigos, de sentar no chão, de voltar a hora que eu quiser sem dar satisfações.
Quando volto me dá uma tristeza. E eu sei que a intenção nunca é chatear, mas eu não consigo evitar sentir-me voltando aos 15 e submetendo-me de novo a essa infantilidade. Digo a mim mesma que melhor ficar calada, concordar e sorrir. Nunca dá certo. 
E aos poucos eu percebo que ainda estou amarrada a essa cidade. E eu a amo, mas não mais amo-me nela. Ela me diminui, me subestima, não me leva a sério. E eu vou levando, sabendo que não tenho escolha e que a liberdade é, sim, relativa. 
Não desisto de libertar-me do passado que não me agrada, afinal, já cheguei até aqui.

(22 de agosto de 2017. Muito tempo trancafiada em Sapiranga).

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Relatos das experiências reaprendendo a andar de bike - day one

Primeira experiência andando de bicicleta na vida real. Não pensei que fosse ficar atordoada com algo que considero tão banal, mas de fato o primeiro dia me deixou bastante nervosa (cheguei em casa e caí morta - dormi como uma pedra por mais ou menos uma hora).
O início foi tranquilo, escolhi um caminho que já sabia ser menos movimentado, evitando as maiores avenidas da cidade - e olha que tô falando de Sapiranga, se fosse Poa eu tava fodida.
A sensação inicial foi uma mistura de liberdade com o nervosismo de se estar responsável não só por você, mas por todo um sistema que funciona e corre e grita e precisa estar funcionando o tempo todo. Pedalar na ciclovia me deixou tranquila e leve. O vento na cara, sem muita gente e sem as amarras de tempo e espaço. Eu me permiti só curtir o momento de primeiros passos, um bebê que depois de arriscar-se devagar descobre que consegue muito mais que pensa e se entrega à coragem de ir ao mundo.
Enfim, decidi dar meia-volta e fazer o caminho contrário, achando já suficiente e satisfatório o primeiro dia em cima de duas rodas. Eis que decido tomar um caminho um pouco diferente, indo por uma das principais avenidas. Comecei a me sentir insegura. A avenida corria nas duas mãos e carros estacionavam dos dois lados, fazendo com que assim o espaço disponível pra minha insignificância se tornasse bastante estreito e eu começasse a ziguezaguear pelo trajeto. Tinha medo de bater nos carros a minha frente e mais medo ainda de ser atingida pelos que vinham atrás de mim.
A sensação de liberdade deu lugar a primeira realização de que eu estava num de mar de monstros: a potência que um carro, um caminhão ou uma moto têm são enormes comparados à minha bicicletinha, e diferentemente de quando eu ando a pé, eu não tinha controle total do que eu fazia. Eu não tava segura, e a minha insegurança arrastava mais ainda minha lentidão no caminho e irritava aqueles que já não tinham paciência pra crianças na sua frente.
Um caminhão passou por mim e mandou uma buzina estridente no meu ouvido (ele era enorme, quando passou do meu lado juro ter puxado o ar pra diminuir a barriga e ter mais certeza de que caberia no espacinho). Fiquei nervosa e decidi que iria pra calçada. Ao tentar entrar, quase bati na frente de um carro que saía da garagem. Gritei mil desculpas e felizmente quem o diria era uma senhora simpática, que muito se desculpou também. Andei mais um pouco com a bike na calçada, respirei, mas logo me senti culpada (não sabia se podia estar pedalando ali) e desci, empurrando-a por um tempo,
Até cheguei a subir na bike e andar as últimas quadras nela, e foi uma decisão sensata, pois me permitiu ter na memória uma última lembrança boa dessa primeira experiência. Cheguei em casa com um bilhão de pensamentos correndo loucos na minha cabeça.
Não desisti. Acordaram em mim milhares de ideias e sensos e vontades, e eu precisava desse susto pra entender que o que eu quero passar a fazer, por mais simples que pareça, exige presença do corpo e mente sem igual. Quero mais, e pra isso decidi tomar algumas atitudes de aprendiz: observar na rua aqueles que andam (especialmente como fazem pra se encaixar nos buracos das ruas estreitas com carros a mil), ler (sobre as leis - posso ou não posso andar na calçada? - e sobre qualquer coisa que possa fazer sentido) e continuar. Evitar essas avenidas por enquanto, mas tentar lugares e me aventurar aos poucos.
Me sinto uma criança de novo. E é bom demais.

14 de agosto de 2017 - Sapiranga.

domingo, 6 de agosto de 2017

A linha tênue entre sonhar e viver

Como se sabe quando se está vivendo um sonho?

Por que se aprende tanto a sonhar mas não se aprende a reconhecer o sonho vivido?

Caralho, já passamos da metade do ano. É impossível não parar, agora que a loucura de fim de semestre acabou, e pensar sobre a surpresa que esse ano tem sido.
Fico feliz em constatar que eu finalmente tô vivendo sem muitos planejamentos. Me surpreende ter tido a coragem e consciência de largar um emprego fixo com grana boa por simplesmente saber ter muito mais a desenvolver.
Aliás, me surpreende as experiências inesquecíveis que eu tive viajando de forma tão relaxada e sem pré-determinações.
Enfim, sobre isso já se fez bastante registro e, de resto, o importante se guarda no interno. O que me pega mesma quando penso nisso é que eu tô possivelmente vivendo a vida que eu sempre quis e constantemente não dou o valor que eu deveria a ela. É difícil perceber que se está vivendo um sonho quando ele de fato acontece.
A questão é que viver o sonho não significa que tudo vai ser perfeito. É sonho, mas ainda é vida. E aí quando me vejo mais reclamando do que curtindo esse momento de tamanha conquista é que eu percebo o quanto a gente se torna ingrata e insensível quando em frente a uma multidão de responsabilidades da vida adulta.
E a vida não acaba quando se chega no sonho. Ela acontece. Ela vibra. Ela DANÇA. Mas ela não acaba, e o sonho já não é mais sonho. O sonho é vida. Por isso não se percebe, se deixa ir em poucos segundos entre o que pode ser e o que é.
Então, não vivamos o sonho. Vivamos o agora, celebremos o instante, a falta de fôlego.
É mais palpável que qualquer sonho.

(29 de julho de 2017. Living the dream! - and honestly, it's just life the way it is).