segunda-feira, 10 de julho de 2017

Soma & Trajeto

É gostoso pensar no pulo que minha vida deu de um tempo pra cá. A velocidade com que as coisas foram mudando e a trajetória que elas foram fazendo me parecem absurdas, mas no fundo eu sei que tudo isso só se tornou possível porque eu dei espaço para que fosse assim. Eu me permiti, eu aceitei o andamento inevitável e não hesitei em tomar decisões importantes - mas felizmente nunca definitivas. Escrevendo isso me vem a imagem de um corpo criando espaço entre seus ossos pra que os músculos se alonguem e se torne uma casa mais leve e saudável. É um processo doloroso, mas a dor que causa é boa e de certa forma prazerosa;  é o psíquico consciente de que o benefício da soma faz o sofrimento valer a pena. E dessa forma o sofrimento já não existe mais, apenas o sentir. Deixar que as experiências tenham seu efeito em nós e não lutar contra o curso natural que isso cria.  Não há manual de como viver, mas seguimos tentando.

{eu sou o meu próprio lar}

(06.07.2017 - The Fools. Tentando entender quando foi que tudo isso aconteceu).

Sensibilidades - França

25.01.2017
Apenas 5 dias que eu saí de casa pra vir pra Europa e já tive experiências pra vida toda. O desespero de me encontrar sozinha num país onde ninguém fala a minha língua, eu não sei como as coisas funcionam e, sinceramente, ninguém tá nem aí, foi um tapa na cara. O pensamento de "vamos fazer isso dar certo" foi constante e mais uma vez apenas confirmei que sair da zona de conforto é horrível, mas a recompensa é renovadora, nos enche de energia. Aliás, resolver problemas muito rápido tem sido crucial nesse viagem. Minha capacidade de quick thinking e fast action se desenvolveu de todas as formas possíveis. Desde achar um lugar pra passar minha primeira noite até conseguir encontrar sozinha a estação de trem.
Das coisas que quero me lembrar, certamente a forma como a Maëlle vive com os flatmates. Simplicidade e melhor: sinceridade pra si mesmo e pros outros. Uma vida mais leve e menos planejada (tudo bem que eu não conseguiria viver uma vida não planejada, mas pelo menos a ideia é bom levar, pra não ficar preso na própria realidade). Andar de bicicleta depois de anos (cair, sim, mas só pra ter história pra contar). A vista dessa região, que é cheia de construções antigas, árvores altas e secas e pôr do sol arrasador. Sinto que essa viagem se tornou mais especial por ter sido diferente do que se espera de quem vai pra França. Andar de bicicleta pelo canal de Rennes também é algo que não dá pra esquecer. Ana, que é voluntária num campo de refugiados, Joakim, que luta contra a violência desumana nas prisões e o cara do bar que me deu comida de graça depois que eu tentei pedir uma cerveja em francês.
Pegar ônibus aqui também tem sido uma experiência diferente, especialmente sozinha. Diferente porque genuína, porque viajar é isso. Viajar é conhecer novas realidades e se sentir parte de um mundo o qual você não conhece. É a fuga do conhecido e confortável. É a aceitação do que não te faz parte (mas agora vai fazer). Viajar não tem a ver com os lugares que você visita, tem a ver com como você reage e se relaciona com a vida que existe nesses lugares, e quanto disso te faz aprender e crescer. O ápice de uma viagem não são as fotos chiques ou as compras internacionais, são as cervejas no bar, a caminhada pela cidade, as conversas que mudam. 
Tudo isso, apenas 5 dias. 15 ainda por vir e a animação se mistura com o medo do novo. Mas medo bom, porque torna a experiência ainda mais intensa. Hoje é dia de voltar pra Paris de trem, pegando metrôs e ônibus até a casa da Marie. Parte de mim não quer sair do conforto da cama na casa da Maëlle, enquanto outro parte grita por adrenalina. 

29.01.2017
Já sinto quase como se fosse moradora de Paris. Já sei pegar metrô, consigo me comunicar, sei as ruas e conheço o bastante pra sair sozinha sem problemas. A experiência de fazer algumas coisas turísticas sozinha foi interessante. É um bom exercício de auto suficiência, mas com certeza quando tive companhia, as experiências foram melhores. Às vezes sinto falta de ter alguém próximo pra poder dividir esses momentos, mas ao mesmo tempo sei que estar sozinha me faz conhecer novas pessoas e ter uma viagem bem genuína. Paris é uma cidade linda e cada canto que eu olho eu me apaixono mais, mas o que essa viagem tem me ensinado é que viajar é bom e nos enche de aprendizados, abre nossa cabeça, nos traz mais vida e vontade de viver, mas o aconchego da minha casa, do meu trabalho, da minha realidade me faz falta. Aqui eu percebi que o que eu tenho no Brasil não é pouca coisa, são grandes oportunidades e pessoas incríveis. Hoje é meu último dia em Paris e eu sei que vou sentir falta dessa cidade. O baguete, os metrôs, as pessoas elegantes e o cigarro tranquilo. Ainda me faltam quase duas semanas de viagem e eu realmente espero que tudo continue nesse ritmo de novas descobertas e relações intensas.

30.01.2017
No aeroporto esperando meu voo pra Hamburgo, e novamento diversos pensamentos tomam conta de mim, refletindo sobre o tempo que passei na França. É incrível o que o ser humano é capaz de construir, e estar numa cidade grande, onde tanta coisa funciona e onde as grandes construções já não importam pra ninguém me mostra o quão grande o mundo é, mas ao mesmo tempo o quão pequena nossa alma tem se tornado. Os momentos que mais valeram a pena pra mim aqui foram as coisas mais simples que se pode imaginar: ir no cinema, conhecer um bar gay (que talvez tenha sido uma das partes mais interessantes, saber um pouco de como a comunidade lgbt vive em paris e ver a diversidade e beleza que existe na nossa existência) e dançar com desconhecidos. Eu gostaria de ter apenas tido mais tempo com o que existe de alternativo na cidade. As belas e enormes belezas urbanas tiram meu fôlego mas não enchem minha alma. Não quero esquecer das coisas que aprendi com a Marie, a organização e a decoração em morar sozinha. Também não quero esquecer a comida na França, como eles tornam as coisas mais simples em algo importante e crucial: pão e queijo, crêpes, temperos, vinho. Essa viagem também me encheu de vontade de ser mais autêntica e original, de firmar minha identidade como pessoa e artista, nas minhas relações e na vida profissional. Me deu vontade de criar e valorizar mais o que é feito por nós mesmos e de procurar aumentar meu conhecimento sobre as habilidades que posso desenvolver. Certamente me sinto mais humana. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Saying goodbye

The saddest thing about the world is that we're constantly leaving someone or something behind. We stick to nothing, hold on to nothing and that's what makes us so full. 
The only thing that helps me keep going and saying goodbye is just the knowledge that at the same time we let go of something good, we're walking forward to find new and exciting experiences.

Letting go is necessary.
Forgetting is unacceptable.

(February 10th, 2017. What a fucking great year.)

I'm crazy in my head

Eyes can say more than any word can. 
They hide nothing
They may be the best way to exchange feelings and intentions.
It's intimate
secret
and misterious.

The first quick look at those eyes I felt only something good could come out of it. An then again, everytime they stared at me, full of passion and a certain kind of sensuality I can't really explain, I felt like my soul was being read entirely, but with no judgement whatsoever - only this tender care about who I am and what I've got to share.
The connections between us are what makes us really human.

*SOME PEOPLE ARE CRAZY IN THEIR HEADS, AND THAT'S WHEN I LIKE THEM*

(09 de fevereiro de 2017. Hamburgo - Alemanha. THIS IS FOR MATILDA)

So-called love

We're made out of relations. So many people in the world and the way we connect transforms who we are in such a huge extent that we call it love. 
Love in its numerous variations and coming in every form we can imagine. But still, love.
It's not about time, it's about intensity. It's about opening yourself truly to someone and discovering what they have to offer with an open mind and heart.

(09 de fevereiro de 2017. Hamburgo)

Considerações sobre a existência e as relações humanas na Europa

O mundo é grande demais pra nos perdermos em verdades absolutas. É grande demais pra nos fecharmos pro que difere de nós. É grande demais pra nos conformarmos com o conforto do conhecido, com a falta de risco, do frio na barriga.
A gente se constrói a partir de reações individuais a experiências diferentes, e estar em constante reconstrução é não ser indiferente à toda vida que acontece fora da nossa própria perspectiva - é absorver, não só observar.
Dividimos as terras, desenvolvemos línguas e criamos costumes. Nos sentimos longe, distintos e conflitantes. Aprendemos a desprezar o que não conhecemos e nos parece inferior - e idolatrar o que parece superior.
Ilusões à parte, somos todos um bando de "eu" criando alguns "nós". Enquanto seguirmos nos preocupando mais com nossos absolutismos, vamos continuar sendo separados por definições pré criadas da nossa existência.

Nossa existência é observar, absorver, transcender e expandir.
Se não for assim, é desperdício de vida.


(08 de fevereiro de 2017. Hamburgo - Alemanha)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Adulthood

Ser adulto cansa, ser adulto exige, ser adulto dói. A vida  adulta não se importa com o quão boa foi a sua intenção. Ela quer resultado. Eficiência. Ganho.
Ela pode às vezes ser doce e cheia de esperança, como o voo de um pássaro que sabe que não tem hora pra chegar, e que pode repentinamente mudar a direção pra qual se dirige, até porque sabe que o que lhe dá prazer é, no fundo, a sensação de estar no alto por si só. Mas é uma doçura que se disfarça dentro de um mar de incertezas, não sabendo bem como chegar até a superfície e deixar de se afogar. É uma esperança que, assim como o pássaro, pode cair feio justamente por estar no ar.
Ser adulto é entender a importância da sinceridade e autenticidade, e aceitar as consequências calado sabendo que nada são além daquilo que você mesmo criou. Ser adulto é parar de crer que as coisas vão acontecer como elas devem acontecer e perceber que sua atitude tem mais valor do que suas crenças.
Os desesperos acontecem, nos dominam e sempre retornam. A vida adulta não entende nossa sensibilidade. Ela é rasa e fria. Ela queima vivo, ela corta sem dó.
Pra nossa sorte, não nascemos adultos. Nos tornamos. E por mais crucial e importante que seja, a vida adulta só sobrevive porque a construímos na base de uma infância de despreocupações e uma adolescência de experiências únicas. Amadurecer a criança não significa esquecê-la. Se fosse assim, estaríamos todos mortos.

(16 de janeiro de 2017. Freaking out.)