segunda-feira, 23 de março de 2020

Café nº 1

Sentei sozinha na mesa do café. Na dúvida se deveria ou não pedir uma bebida pra refrescar a garganta nesse calor de janeiro em plena Salvador, passava os olhos pelas estantes transbordando livros, numa bagunça organizada que tanto combinava com as almofadas de cores várias mas tons outonais, assim como com as singelas mesinhas de madeira e a senhora de avental estampado e cabelo grisalho sorrindo pra mim atrás do balcão.
Decidi pedir. Soda italiana de maçã verde. Achei elegante. O canudo não era de plástico descartável. Elegante e sustentável.
Não sabia bem o que fazia ali, mas de certa forma parecia fazer sentido. Fazia tempo que não me desprendia do sentido concreto das coisas. Nesse momento, o tempo parecia perder sua função, dissipar-se num limbo quase flutuante, em que os pensamentos também não faziam questão de seguir uma viagem lógica. Algumas horas antes havia chorado sozinha vislumbrando o mar. Por mais deprimente que pudesse parecer, também me fazia sentido.
Chorava de saudades e pela angústia de sentir-me perdendo algo. Meu pensamento insistia em trazer de volta passados que meu coração parecia negar-se a deixar no seu devido lugar de coisa que já passou. Impressiono-me a experimentar na pele, no olho e no toque a extrema divergência de espaço e tempo e como eles, por mais cúmplices que sejam das danças dessa vida, podem perder-se um do outro tão facilmente a ponto de criar nós em nossas linhas tão bem posicionadas de planejamento.
Mas de volta ao café. Já não chorava mais. Sorria. Mas um sorriso assim de canto de boca, de gente tranquila que por falta do que fazer sorri assim meio sem querer. Bebia a soda italiana lentamente, sentindo o gás cortando o corpo adentro, quase como um choque gélido. Era uma sensação estranha que fazia um tempo não sentia. Havia algo de inteiro em estar ali, naquele café escondido no Porto da Barra, com um leve sorriso solto e não bebendo de canudo plástico. 
Olhei pela janela afora, diretamente em direção ao mesmo mar que antes me lavava as lágrimas dos olhos, e com um suspiro quase despercebido finalmente me dei conta do que gritava em minha frente: o vazio que eu sentia não era saudade daquelas de meu passado. Era de mim mesma que meu corpo sentia falta.

(3 de fevereiro de 2020)

domingo, 22 de março de 2020

Tormenta

Se eu fosse contar a quantidade de mulheres que me atravessam, será que daria pra medir o nível da minha angústia?
Que drama, penso eu. Que força tem minha dor perto da imensidão do mundo, ou talvez quantos são os sorrisos que se abrem a cada lágrima minha, ou ainda quantos são os braços que se enlaçam na alegria do reencontro a cada vez que meus olhos se despedem, cansados, de mais um rosto lindo com a iludida promessa de algo a mais estampada quase escancarada a rir da minha esperança miserável.
De cada gole de cerveja, de cada toque sutil na mão com intuito de guiar um giro tímido e quem sabe um sorriso envergonhado, de cada olhar de canto do olho, me saem borboletas a voar na mente ocupando um vazio que insiste em tomar conta do meu peito e que mesmo por tamanha potência criativa e de vida que sei que tem, me atormenta o sono e o tempo.
Minha escrita pede sofrimento. Meu coração pede paz.

(26 de janeiro de 2020)

La nordestina

Caí na velha história da nordestina cheia de ginga e o coração gigante e o corpo suado e o sotaque que me deixa toda boba sem vontade de ir embora.
Fui.
Agora não sei como voltar.
Queria acreditar numa história de filme cheia de voltas e sofrimentos só pro final feliz chegar e acalentar os corações sem esperança.
Meu coração segue indeciso.
É difícil não amar a nordestina. Difícil não querer acompanhá-la com olhos brilhando por ver a elegância, a exuberância e a determinação daquela mulher, com o imenso prazer de saber-me cúmplice de tal esplendor de ser humano.
Sei o que devo sentir. E conheço meu coração mole que abraça mesmo se envenenando. Sofre devagar, um sofrimento que escorre lento quase despercebido na tranquilidade da rotina. Me contento em vê-la feliz, a nordestina que me desconcerta.

Logo a nordestina passa.
Ainda bem que a nordestina veio.

(4 de janeiro de 2020)

Sozinhez

lentamente
reaprendo
a me ver

só me ver
em linhas tortas
retas curvas
cambaleio
e nos meus traços projeto
a trajetória
de
ser,

e ampliar minha sozinhez
e ser mais do que se fez
e dançar mais uma vez
se meu corpo pede festa
barulho em si mesmo
que besta seria eu
de calar os seus gracejos.

(14 de dezembro de 2019)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Whole picture

Look at the whole picture.

It's impossible to be perfect
in all your relationships
at all times.

That doesn't mean you're a bad person.
It only means you're alive.

31 de julho de 2019.

Feminino

Sinto como se pudesse ver algumas partes minhas se desgrudando e sendo levadas pelas ondas do mar.
Dói.
Mas se olho com atenção, no horizonte encontro, emergindo das águas, uma nova possibilidade de mim.
Há tanto tempo prego uma frequência que, mal sabia eu, nem a mim mesma cabia. Mas finalmente encontrei caminhos, pelas águas, pela terra, pelo fogo, pela arte e, principalmente, pelo feminino, pra buscar minha essência e minha intuição.
Eu me amo.
Me amo inteiramente, com todas as minhas falhas, toda minha consciência e inconsciência. Amo meu corpo e o que ele representa. Minha matéria, meu conteúdo.
Amo minhas possibilidades. Amo o que me espera e o que me transforma.
E assim já é.

02 de julho de 2019.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Objetivo e neutro


O que se perde em um instante de silêncio? E mais ainda, o que se ganha?

Sentir é subjetivo. Arte pressupõe poética. Emoção parte de dentro, mas encontra abrigo fora. Nada na dança é objetivo.
Nada no movimento é neutro. Nenhuma palavra é vazia.
Vivenciar arte é uma constante busca por aquilo que não se pode medir.

Acessibilidade em Trânsito Poético - 26 de abril de 2019