Sentei sozinha na mesa do café. Na dúvida se deveria ou não pedir uma bebida pra refrescar a garganta nesse calor de janeiro em plena Salvador, passava os olhos pelas estantes transbordando livros, numa bagunça organizada que tanto combinava com as almofadas de cores várias mas tons outonais, assim como com as singelas mesinhas de madeira e a senhora de avental estampado e cabelo grisalho sorrindo pra mim atrás do balcão.
Decidi pedir. Soda italiana de maçã verde. Achei elegante. O canudo não era de plástico descartável. Elegante e sustentável.
Não sabia bem o que fazia ali, mas de certa forma parecia fazer sentido. Fazia tempo que não me desprendia do sentido concreto das coisas. Nesse momento, o tempo parecia perder sua função, dissipar-se num limbo quase flutuante, em que os pensamentos também não faziam questão de seguir uma viagem lógica. Algumas horas antes havia chorado sozinha vislumbrando o mar. Por mais deprimente que pudesse parecer, também me fazia sentido.
Chorava de saudades e pela angústia de sentir-me perdendo algo. Meu pensamento insistia em trazer de volta passados que meu coração parecia negar-se a deixar no seu devido lugar de coisa que já passou. Impressiono-me a experimentar na pele, no olho e no toque a extrema divergência de espaço e tempo e como eles, por mais cúmplices que sejam das danças dessa vida, podem perder-se um do outro tão facilmente a ponto de criar nós em nossas linhas tão bem posicionadas de planejamento.
Mas de volta ao café. Já não chorava mais. Sorria. Mas um sorriso assim de canto de boca, de gente tranquila que por falta do que fazer sorri assim meio sem querer. Bebia a soda italiana lentamente, sentindo o gás cortando o corpo adentro, quase como um choque gélido. Era uma sensação estranha que fazia um tempo não sentia. Havia algo de inteiro em estar ali, naquele café escondido no Porto da Barra, com um leve sorriso solto e não bebendo de canudo plástico.
Olhei pela janela afora, diretamente em direção ao mesmo mar que antes me lavava as lágrimas dos olhos, e com um suspiro quase despercebido finalmente me dei conta do que gritava em minha frente: o vazio que eu sentia não era saudade daquelas de meu passado. Era de mim mesma que meu corpo sentia falta.
(3 de fevereiro de 2020)