quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Burden

leaving her is hard. how can one let go of the comfort of warm arms to face the rudeness of a crazy city?

it doesn't seem fair that a person whose only wish is to love, and to love widely, has to deal with the burden of not being able to do so.

1/01/19

Tu inteira

adoro quando nossos corpos se tornam fluidos. onda incessante de calor, pele de pelos eriçados de tanto amar.
meu corpo te chama pelo nome, meus lábios já conhecem teu gosto, tua voz é como canção que me abraça.

tu inteira é banho quente de suor.

30/12/18

Lar de Liberdade

nesse apartamento, tudo resumido a caixas.
matérias
memórias
manias
um pouco de mim em cada sacola, que leva o meu grito abafado pelo cupim no chão molhado no qual miro meu reflexo e choro.
o pranto cai como essa água da geladeira desligada, inútil, pesada. o sofá ainda escorado na mesma parede, mas onde não mais sentarão as mesmas pessoas enérgicas e cheias de vida, porque o espaço é apenas cúmplice do que existe bem mais no fundo, e bem menos concreto.
sinto que perco esse abstrato junto com meu primeiro lar de liberdade. já não tenho pra onde fugir, por hora. agora é carregar no peito lembranças e torcer para que sejam fortes o bastante pra manter viva a intensidade de ser independente aonde quer que for.
porque antes o que fora lar de crescimento, descoberta, reconforto, representa agora angústia e medo. e ele ainda está lá, na mais estável concretude.
meu lar de liberdade se esvai enquanto espaço, mas vai embora com a certeza de que fez o seu papel.

meu lar de liberdade, agora, sou eu mesma.

29/12/18

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Natal freudiano

meu berço despedaça o que há de político em mim
me alimenta de resiliência, força que cansa
ainda assim, minha mente dança
a luta se rega em lágrimas,
mas a certeza não balança.

25/12/18

Outubro de 2018

como podem me dizer
que tudo vai ficar bem
"não precisa exagerar,
tudo logo vai passar"

como podem olhar nos meus olhos
segurar minha mão
enlaçar-me em um abraço
pedindo minha compreensão
de que eu já antes sofria
como se minha atual agonia
não fosse real
e embasada
e lambusada
no peito.

se antes havia receio
como esperam que eu me sinta
vendo que mesmo em meu meio
aqueles que eu olhava com respeito
às vezes até mesmo afeto
ignoram minha voz
e me dizem pra ter esperança
e que sim, fazem isso por mim
que entendem minha dor
que também sentem meu medo

e eu acho até engraçado
que o discurso deles abafa
meu choro desesperado.



o medo que eu sinto
não corresponde
a nem metade
do amor que eu tenho.


13/10/18 

domingo, 7 de outubro de 2018

Fluidos

"(...) seria apenas necessário tomar a atitude deliberada de induzir-me rapidamente a um orgasmo. Bastaria, pensei, começar a pensar e a agir. Mas não consegui sequer uma ereção. Lembro que, assustado com a neutralidade tátil com que reagiam meus órgãos genitais ao manuseio - neutralidade que logo se transformava em dissabor, e que correspondia a uma indisposição do espírito para o prazer ou o desejo -, adiei por uma ou duas vezes a tentativa. Os dias que se seguiam não traziam nenhuma esperança de que meu corpo e minha mente pudessem se aproximar do milagre rotineiro do sexo, não mais do que aquele do pranto. No entanto, que bênção que seria não apenas ser arrebatado pela tristeza e pelo prazer mas também - e talvez principalmente - ter a experiência física das lágrimas ou de uma ejaculação! Parecia-me que eu seria salvo do horror a que fora submetido se sentisse jorrar de mim esses líquidos que parecem materializar-se a partir de uma intensificação momentânea mas demasiada da vida do espírito. De fato, o pranto e a ejaculação são, por assim dizer, vivenciados como um transbordamento da alma quando esta a um tempo se adensa e se expande, paradoxo interdito à matéria."
Caetano Veloso (livro Verdade Tropical,  1997, pg. 362)

Inundada

azuis os olhos
que me olham
despem meu medos
abraçam-me
como se fossem mar
e eu
terra seca.

(7 de outubro de 2018. ma divine femme)